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Complementariedade Neurótica por Ieda Benedetti

Neste texto discorreremos sobre a complementariedade neurótica que, de modo simplificado, significa buscarmos no outro e em relacionamentos os aspectos faltantes em nossa estrutura de personalidade.
As escolhas não são definidas pela simpatia, classe social, estética ou caráter e nem mesmo por razões sabidas ou conscientes, pelo contrário: os elementos decisivos para as escolhas relacionais são antes inconscientes e pautados pelas nossas faltas, vazios existenciais e, fundamentalmente, pelos desejos inconscientes de repetirmos nossa história originária da formação psicológica.
Dito de outro modo, escolhemos nossos parceiros e relacionamentos em geral, não pelo que parece ser, mas antes pela necessidade de repetir a história da nossa constituição psíquica, a nossa primeira fase do desenvolvimento. Assim, a relação com os pais, na primeira infância, ganha importância significativa.
O referencial teórico que sustenta esse pressuposto é o psicanalítico. A autora deste trabalho se baseia em Donald Woods Winnicott, psicanalista inglês, que também referencia sua prática profissional.

A Matriz Psíquica: história originária da formação psicológica.

As primeiras relações estabelecidas com o mundo em que nascemos vão definir e formatar uma base afetiva. A forma com que pais se relacionam com os filhos, as faltas, as falhas e os ganhos dessa etapa marcarão um modelo de relação.
Os seis primeiros anos de vida são especialmente decisivos. Por exemplo, mães que se vitimizam ou pais dominadores tendem a deixar o espaço complementar – onde se estruturará a personalidade do filho – vazio. Uma mãe submissa tende a se submeter aos imperativos da criança, uma mãe dominadora tende a não permitir que a personalidade do filho se sobressaia. Assim, a dinâmica relacional complementar vai se montando. O sádico procura seu masoquista e a vítima busca seu algoz.
Desde as primeiras etapas da formação psíquica as relações vão se estabelecendo por complementariedade e por identificação: ou buscamos ser complementares na relação com o pai ou mãe ou buscamos repetir o seu comportamento, ou seja, nos identificamos com o que vemos e vivenciamos.
Assim, um pai que oprime a mãe e uma mãe que se posiciona como oprimida frente aos desafios da vida, tendem a ter filhos que se identificarão com um dos vértices da relação e irão repetir o comportamento oprimido ou opressor.
Não devemos aqui cair no erro simples de afirmarmos que a culpa é dos pais simplesmente. Lembramos antes que os pais tiveram pais e os avós também o tiveram. A construção da personalidade segue uma lógica historicamente definida por relações imediatas e passadas.
Nessa primeira etapa de desenvolvimento então montamos a matriz psíquica, que seria a construção de um padrão de ideias, comportamentos, sentimentos evazios. Aplicaremos essa matriz em outras etapas da vida. Cria-se um padrão, por vezes patológico, de comportamento. Por volta do sexto ano essa matriz está solidificada e será reutilizada ao longo da vida como um norteador das nossas ações. Ou seja, passamos a repetir padrões internalizados.
Na adolescência, período onde as posturas críticas são efervescentes, os jovens acreditam estar muito distantes da matriz psíquica criada na primeira infância. Questionam os pais e pensam que jamais repetirão seus erros.
Nessa mesma etapa, buscam parceiros afetivos que podem, aparentemente, estar distantes do modelo construído na matriz. Contudo, ao longo do desenvolvimento das relações, curiosamente a face oculta na matriz vai se revelando. Encontramos no outro as faltas deixadas na estrutura originária e a repetimos. Mesmo os jovens mais rebeldes se flagram em atitudes de repetição que o tempo se incumbe de revelar como expressão de erros aprendidos e repetidos por outras gerações.
Enquanto não se compreende o conteúdo estruturado na matriz original, repetimos os mesmos erros, erramos nos mesmos lugares (falhamos nas mesmas situações ?). Parceiros que, aparentemente, não tinham nada em comum com os anteriores, com algum tempo se revelam iguais. A matriz encontra seu par escondido em outros contornos. O dedo podre se revela com o tempo. Esse erro repetitivo é fruto da construção da matriz psíquica.
O inconsciente não erra. A vítima encontra seu algoz, o sádico encontra seu masoquista, o abandonado encontra seu abandonador, o fracassado encontra seu fracasso e repete a saga que só pode ser superada com a compreensão do conteúdo da matriz psíquica.

Tendência a repetir

Por termos a matriz psíquica moldada nos primeiros anos do desenvolvimento infantil, formamos as nossas bases emocionais que definem a tomada de decisão nas relações afetivas estabelecidas (nas relações com os pais principalmente). Aplicamos então a mesma lógica relacional nas relações subsequentes por não percebermos que repetimos. São ações definidas pelo inconsciente: O que não compreendemos, repetimos!
A possibilidade de transformação dessa lógica viciosa está na compreensão das motivações inconscientes que geram o ciclo repetitivo que conduz ao sofrimento e à estagnação.
Portanto, a análise dos conteúdos presentes na matriz – que é inconsciente – torna tais conteúdos conscientes. Ao desvendar esses sentidos, revelar sua base, tais conteúdos deixam de ser inconscientes, tornando-se conscientes e acessíveis à inteligência e à tomada racional de decisões.
Compreender é a chave para não repetir. As pessoas não erram nos mesmos lugares porque querem e sim por sermos regidos por determinações inconscientes. Uma vez interpretadas as relações do inconsciente elas deixam de produzir sintomas, permitindo que as pessoas tomem decisões e atitudes que conduzam à uma vida mais feliz e menos adoecida.

Repetimos nas relações interpessoais as falhas contidas na nossa construção psíquica formatadas na primeira infância. Por isso é comum errarmos sempre nos mesmos lugares. É comum a repetição de erros em relacionamentos: as escolhas erradas se manifestam em novos vínculos. Igualmente, isso se dá em relações de negócios, profissionais, amizade e amor. Os erros reaparecem em novas roupagens.
Procuramos preencher os vazios da nossa incompletude em relações atuais. Enquanto não podemos compreender quais são os vazios da inconsciência eles se reapresentam até serem decifrados e superados.
A possibilidade de superação, portanto, é a análise dos conteúdos da matriz psíquica. A terapia analítica é então o caminho.

Mais informações: Ieda Benedetti/ Psicóloga – CRP 06/27228-0
Instagram: @Dra_iedabenedetti
Facebook: Ieda Benedetti
WhatsApp 18 99720 0055

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